terça-feira, 4 de maio de 2010

Autochoque: quem manda em quem?

Domingo assisti à peça AUTOCHOQUE: TRILHA SONORA PARA ACIDENTES. Surreal, e ao mesmo tempo, muito real. Não era nada convencional, não era uma peça linear, com início, meio e fim bem definidos. O ambiente onde o espetáculo foi apresentado já tinha a ver com o clima: um galpão, ou seja, nada de palco tradicional. O cenário, maravilhoso: pedaços de carros pendurados e dispostos em harmonia pelo chão. Só que a harmonia parava por aí, pois o que o espetáculo mostrou foi o caos.
Como espetáculo multimídia, o grupo utilizou-se de diversos recursos para mostrar a sua ideia: a música, o vídeo, o canto, a trilha sonora executada ao vivo. A trilha sonora era maravilhosa: uma guitarra, uma percussão com bumbo e um tonel (o percussionista era a alma da trilha sonora, era o melhor do grupo), um piano de brinquedo, um xilofone, e um baixo tão bem tocado como poucas vezes ouvi antes. Não havia texto, ações, diálogos: um vocalista/ator e uma vocalista/atriz entravam no palco, davam um texto (ou cantavam, dependendo do momento do espetáculo), e os vídeos associados à trilha sonora demonstravam as ideias.
E qual era a ideia do espetáculo? A ideia era a realidade: os veículos são os verdadeiros líderes da sociedade. Vivemos em função de veículos, assim como morremos em função de veículos. Os vídeos mostraram diversas cenas chocantes de acidentes em auto-estradas, cenas de teste de resistência de veículos em fábricas, detalhes de cicatrizes geradas por acidentes de trânsito e animais mortos pelas estradas após serem atropelados. É chocante ver como um carro, projetado para dar segurança a quem por ele é transportado, acaba-se em um acidente como se fosse um copo de plástico sendo amassado na mão (analogia que foi usada pelo grupo no espetáculo). Vários vídeos de testes de fábrica para verificar a resistência de veículos mostravam como os carros – e os passageiros – ficavam depois de uma colisão. Impressionante foi um vídeo de dois caminhões batendo dentro de um túnel, e um ônibus urbano capotando e rolando como se fosse um brinquedinho frágil. Em uma cena que mostrava a colisão de dois carros, era como se os dois estivessem entrando um no outro, tamanha a violência do choque. Estamos tão acostumados a ver e ouvir falar de acidentes, mas nunca paramos para pensar que os carros mandam nas pessoas. O caos existente nas grandes metrópoles ocorre devido a quê? Devido ao trânsito. As pessoas se matam nas estradas, por quê? Devido à falsa sensação de poder que um veículo traz. Ou você já parou para pensar que todo motorista acha que é um Schumacher ao volante? Quantas vezes ouvimos a frase “eu dirijo melhor quando estou bêbado”? A sensação de poder do álcool misturada à sensação de poder de um carro em alta velocidade é uma droga a mais no sangue, cuja overdose na maioria das vezes é fatal.
E a dependência das pessoas em relação aos seus veículos? O Dia Mundial Sem Carro, se alguém aí reparou, é uma campanha falida. Poucas pessoas – apenas os ecologicamente corretos – deixam seus carros em casa para aderir à campanha. Cansei de ouvir frases como “bem capaz que vou deixar meu carro em casa só para participar de uma campanha idiota como essa!”. Ok. Mas essas pessoas esquecem que existem outros meios de se locomover pela cidade...
E você, já parou para pensar se é você que comanda seu carro ou seu carro que comanda você?





Nota: a temporada de Autochoque: trilha sonora para acidentes encerrou no domingo, e infelizmente o grupo não planeja realizar nova temporada.
Fica o endereço do blog do grupo Ío, responsável pelo maravilhoso espetáculo:
www.autochoque-io.blogspot.com

3 comentários:

Edinho Lumertz disse...

Opa, sim, ótima pergunta! Já me perguntei. Felizmente sou eu quem comando o carro, quando dirijo. Procuro andar na pista da direita só quando está muito difícil(por causa das lotações, ônibus, carroças, conversões de carros pequenos). Não desrespeito o limite de velocidade e paro para os pedestres mesmo que não haja faixa. Motivo: aprendi na auto-escola que é uma covardia enorme jogar um aotomóvel contra um ser humano(ou cachorros e gatos perdidos)que é muito mais frágil, mais fraco e indefeso. Claro que tem pedestres abusados que atrapalham de propósito, mas nem por isso os desrespeito. Quem anda de carona comigo sempre testemunha um excelente exemplo de como se comportar. Essa coisa de que um cidadão normal transforma-se num demônio atrás do volante é bem antiga. Vi isso pela primeira vez num desenho da Disney. O personagem Pateta aparece como sendo um distinto cidadão, bem educado, trabalhador, com jornal nas mãos, em sua casa. Quando ele vai para o trabalho precisa do carro. É quando ele assume sua 2° personalidade que não aceita "obstáculos" a sua frente, mesmo que sejam outros veículos. Conheço vários Patetas iguais a este do desenho. Por hoje é isso. Abraços.

Edinho Lumertz disse...

eu quis dizer que procuro andar sempre na pista da direita, exceto quando está muito difícil de se andar por causa das lotações. Na pressa escrevi errado.

Jackson disse...

Oi Nayane, ótimo texto sobre nosso trabalho no AUTOCHOQUE. Sds, Jackson.